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Acorde mestre – a voz sibilante de Ody retumbou em sua mente – Os deuses o
aguardam, e sabe como eles podem ser despresiveis quando são obrigados a
esperar.
A
cabeça doía incontrolavelmente, a bebida do dia anterior havia afetado mais que
seu corpo, sua alma estava revoltosa com o desconforto. Precisaria de um bom
tabaco para conseguir se acalmar. Mas depois, realmente, os deuses eram
irritantes quando contestados.
- Tome cuidado com a lingua meu caro Ody, eles
podem ouvilo e punir sua mente, já que o corpo está todo estragado mesmo.
Olhando
de relance, Ody poderia parecer qualquer coisa, menos um humano. O que na
verdade ele realmente não era. Suas deformidades faciais assim como osseas e
disfunções musculares lhe davam um ar de morcego albino, a cabeça careca por
exceção dos pequenos tufos de cabelos pretos aleatórios, era alongada e cheia
de protuberancias naturais de sua raça. O corpo era torto já que a colura
ficara disforme com o tempo,devido a falta de musculatura.
Ody
era de um contraste gritante a seu mestre. Alpheus, por sua vez possuia belos
cabelos amendoados, com mechas em vermelho fogo nas pontas, combinando com
perfeição à sua pele morena queimada, os olhos púrpura e labios finos lhe davam
um ar anti-natural, boa parte de seu charme principesco. A barba negra, sempre
por fazer, e os dentes impecavelmente brancos acrescentavam a sua beleza a
fotogenia invejada pelos homens e desejada por quase todas as mulheres de
Arquad.
- Mestre, arrume-se direito, nenhum deus quer
ve-lo com tão pouca roupa, se me permite dizer.
- Posso lhe garantir que Telmis e Kalisa nunca
reclamaram.
O
rubor de Ody, se é que seria possivel algo assim se ruborizar, foi seguido de
uma sincera gargalhada de Alpheus.
Em um desdenhoso aceno havia distorcido as
vestes, que mal conseguiam lhe cobrir a pele, em um conjunto formal de seda
kandariana de um vermelho e púrpura profundos,suas cores prediletas, com uma
abertura em V lateral, deixando o mamilo esquerdo a mostra, junto com o
peitoral marcado de tatuagens tribais dos lupinos nomades. As calças de linho
azul e gavião baixo davam a leve impressão dos antigos Djinns do deserto,
amigos de velha data.
-
Está maravilhoso meu caro senhor, um verdadeiro lorde.
-
Poupe-me de sua bajulação, agora vá buscar o livro, preciso encontrar os nossos
grandes e amaveis deuses patronos. – O leve tom de ironia passou despercebido
por Ody, que logo foi buscar o pesado livro em couro.
Antes
que o servo pudesse lhe entregar o grimório, Alpheus o trouxe levitando para
sua frente, abrindo-o na exata pagina a qual precisaria para abrir as portas de
fayre, o reino dos deuses.
Ody,
apatico quanto aos poderes do mestre, retomou seus trabalhos de limpeza
enquanto observava-o atravessar as dimensões umbrais para o reino dourado dos
deuses. Ele podia odiar seu mestre, sua magia, até mesmo seus proprios poderes
vampíricos, mas nunca conseguiria odiar a visão do mais belo reino de todas as
dimensões.
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