sábado, 4 de abril de 2015

O Veredito Final - 02

O portal se abriu em meio à arena de lutas. Os dezoito deuses aguardavam impacientes a sua chegada. Alpheus tinha as mãos frias, suadas, o destino das quatro raças dependia de sua habilidade de argumentação, um difícil trabalho, considerando que sua plateia seriam os dezessete patronos e o próprio Criador da existência.
Não esperava que seu portal o levasse logo a Arena Dourada, onde tantos de sua raça se enfrentaram em embates sanguinários. Imagens de amigos mortos o acompanharam a cada passo que dava nas areias negras.
O retumbar em seu peito precedeu a voz de Raikou, o tigre branco mestre das tempestades.
- Finalmente chegara mortal. Seu desrespeito à dadiva do tempo nos enoja.
Seu corpo esfriara, seu próprio patrono o rebaixando, mais do que já se sentia no momento.
- Peço desculpas pelo meu atraso grandiosos, mas reger o mundo da magia é um trabalho árduo e que merece grande atenção.
- Então, - a bela raposa Kalisa cantava -  nada mais justo que retirar de suas costas esse fardo, não concorda Alpheus?
Os batimentos cardíacos tiveram que ser controlados, sua magia tinha pouco poder diante dos patronos, os deuses que criaram a magia controlavam tanto sua existência quanto sua potência, a magia era domínio deles. Alpheus mal entrara e já sentia-se a ponto de desesperar-se.
- Perdão grande mestra das artes, devo ter me expressado mal, não digo por ser um fardo. Os senhores me deram esse dom, não há necessidade de tira-lo por enquanto. Humildemente alego ser digno de tal posto, - sua mente trabalhava em uma velocidade forçada que não estava acostumado a fazer, não se arriscaria a usar seus poderes de limpeza de mente na presença de seus mestres, um sinal de fraqueza, que poderia custar-lhe caro - venho para defender minha raça e de meus irmãos.
- Já sabemos disso mortal, melhor se esforçar em sua defesa, pois a menos que tenha algo que Anansi não saiba, seu destino está tecido. - Raikou era sempre o mais incisivo, assim como seus raios, suas palavras eram fulminantes.
O aperto no peito de um futuro trassado e inevitável rompeu a sanidade de Alpheus.
- Credos e seitas criadas em defesa de tu, ó deus dos trovões, dependem de minhas palavras, julgam-me digno de contestar deuses, o que na verdade é impossível, - alimentar o ego de seus ouvintes seria sua única oportunidade agora que seu destino foi traçado - rogo-lhes que permitam à sua cria, provar ser correta e justa, assim como não fora antes, por arrogância e egocentrismo. Julgamos ser superiores a tudo, grandes deuses, mas somos apenas servos de suas palavras, - os fios de Anansi tinham que ser rompidos ou tudo estaria perdido - somos servos e não mestres de nossos destinos, e assim como um fiel servo, aceito humildemente o destino que me traçaram. - Um blefe, talvez, mas que não foi percebido, pelo menos não pelos dezessete que mantinham-se atentos. O Criador, por sua vez parecia não perceber o que ocorria a sua volta.
A longa barba de dragão d'O Grande Ancião e seus verdes olhos refletiam a realidade assim como ele a desejara. De todos os deuses, O Grande Ancião era o mais desapontado com sua criação, que deturpara sua verdade e que com o auxilio de Evanescente, o deus das mudanças, criaram um mundo falso e autodestrutivo. Seria ele a dar o decreto final, e sua decisão havia sido tomada.
- Grandes senhores da realidade, rogo-lhes a oportunidade de ser novamente o mestre dos divinos, as quatro raças tão devotadas aos seus criadores. Sou um homem de palavra, conheceis minha linhagem, sabem que posso ser um grande líder, assim como um grande servo. Somos aqueles que foram criados para guiar o mundo, então nos dê a oportunidade fazermos aquilo ao qual fomos criados. Deuses, peço que nos dê a oportunidade de guiar novamente a humanidade para a ascensão. Prometo-lhes que não falharemos em nossos deveres nunca mais.
E o futuro da humanidade e dos divinos foi decidido.
Um uníssono de vozes, tão belas que seriam enlouquecedoras aos ouvidos de um humano, saíram do imenso dragão de verde. Tanto na terra quanto nos mares, foi visto o Avatar d'O Grande Ancião, que decretou a nova era de Arquad.
- Minha palavra é a lei, mortal. Sua raça é pecaminosa e desonra os preceitos criados pelos deuses, seus atos imperdoáveis de prepotência e arrogância os condenaram à seu destino. De hoje em diante, os poderes divinos serão extintos, até que sua existência se torne lenda e que a humanidade se sinta exposta ao caos e destruição que ela mesmo se condenou. Sois desprezíveis aos olhos de seu criador.
E a partir deste dia, as quatro raças divinas, Arcanos, Feéricos, Lupinos e Vampiros, foram extintos. Até o fim dos tempos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário